“Então pensei em montar uma árvore de Cristo para meu pequeno irmão. Nickerl. Mas tudo em segredo (isso fazia parte do procedimento).
“Depois de já ter clareado o dia, saí em meio ao nevoeiro gelado. Este protegeu-me do olhar das pessoas que trabalhavam em torno da casa (…)
“Logo fez-se noite. A criadagem estava ainda ocupada nos estábulos ou nos quartos da casa, onde, segundo o costume da Noite Santa, lavavam a cabeça e se vestiam com trajes de festa. Na cozinha, minha mãe fazia os sonhos (doce) para o dia de Natal. E meu pai, com o pequeno Nickerl, percorria a propriedade para abençoá-la, levando para isso, num recipiente, carvões incandescentes; sobre eles espalhava o incenso… a fim de incensá-las enquanto rezava em silêncio. (…)
“Enquanto o pessoal se ocupava em suas tarefas lá fora, eu preparava na sala grande a árvore de Cristo. Tirei a árvorezinha do meio da lenha e coloquei-a sobre a mesa. Depois cortei de um maço de cera dez ou doze velazinhas e coloquei-as sobre os pequenos galhos. Embaixo, aos pés da árvorezinha, depositei um pão doce.
“Ouvi então passos lentos e suaves na parte de cima da casa. Eram meu pai e meu irmãozinho que já estavam lá e abençoavam o sótão. Logo chegariam ao salão. Acendi as velazinhas e me escondi atrás do forno. A porta se abriu e eles entraram com seu recipiente de incenso. E ficaram parados.
“- O que é isto? perguntou meu pai com voz baixa mas prolongada.
“O pequeno Nickerl ficava emudecido. Nos seus olhos grandes, redondos, espelhavam-se como estrelinhas as luzes da árvore de Cristo.
“Meu pai avançou devagar para a porta da cozinha e chamou baixinho:
“- Mulher, mulher! Venha ver um pouco.
“E quando ela apareceu:
“- Mulher, foste tu que fizeste?
“- Maria e José! - exclamou minha mãe. -O que deixastes sobre a mesa?
“Logo chegaram também os criados e criadas, vivamente impressionados com a inédita visão. Então um rapaz que viera do vale fez a suposição:
“-Poderia ser uma árvore de Cristo!
“Seria realmente verdade que os anjos trazem do Céu tal arvorezinha?
“Eles a contemplavam e se admiravam. E a fumaça do incenso enchia a sala inteira, de modo que era como um delicado véu que pousava sobre a árvorezinha iluminada.
“Minha mãe procurou-me na sala, com o olhar:
“- Onde está o Pedro?
“Julguei então ser o momento de sair do canto do forno. Tomei pelas frias mãozinhas o pequeno Nickerl, que continuava emudecido e imóvel, e levei-o para junto da mesa. Ele quase resistiu. Mas eu lhe disse, em tom profundamente solene:
“- Não temas, irmãozinho! Olha: o querido Menino Jesus te trouxe uma árvore de Cristo. Ela é tua!
“O menino estava contentíssimo. E juntou as mãos como fazia na igreja para rezar”
